Isenção do IR: R$ 28 bilhões na economia brasileira

Uma promessa que virou lei

Em 26 de novembro de 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou uma das mais aguardadas reformas tributárias do país: a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para trabalhadores que ganham até R$ 5 mil mensais. A medida, que entra em vigor em janeiro de 2026, foi aprovada por unanimidade tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal, demonstrando raro consenso político em torno de uma pauta tributária (Planalto, 2024).

A nova lei representa o cumprimento de uma promessa de campanha feita por Lula em 2022 e marca a primeira reforma significativa da renda no país em décadas, mexendo em uma "ferida social de longa data", nas palavras do ministro da Fazenda, Fernando Haddad (Exame, 2024).


Quem será beneficiado pela mudança

Os números são expressivos: aproximadamente 15 milhões de brasileiros serão diretamente beneficiados pela nova legislação. Desse total, 10 milhões deixarão de pagar o Imposto de Renda completamente, enquanto outros 5 milhões terão redução no valor devido (Senado Federal, 2024).

Para quem ganha entre R$ 5 mil e R$ 7.350, a lei estabelece descontos progressivos que variam conforme a renda. Os descontos são de 75% para rendas próximas a R$ 5 mil, 50% para faixas intermediárias e 25% para rendas até R$ 6.500. Já quem recebe acima de R$ 7.350 continua pagando a alíquota máxima de 27,5% (Guarulhos Hoje, 2024).

Somando todas as mudanças implementadas pelo governo Lula desde 2023, quando foi estabelecida a isenção para quem ganha até dois salários mínimos, o número total de beneficiados chega a aproximadamente 25 milhões de brasileiros (Planalto, 2024).


Quanto dinheiro fica no bolso do trabalhador

O impacto financeiro na vida dos trabalhadores é significativo. Segundo cálculos do Ministério da Fazenda, um trabalhador com salário de R$ 5 mil que deixa de pagar o imposto economizará aproximadamente R$ 4.356 por ano. Isso equivale a praticamente um 14º salário no bolso do trabalhador (Metrópoles, 2024).

Para quem está nas faixas intermediárias de renda, entre R$ 5 mil e R$ 7.350, a economia varia entre R$ 1.300 e R$ 3.300 anuais, dependendo do salário exato (Metrópoles, 2024).

Em seu pronunciamento à nação, o presidente Lula ilustrou o impacto prático da medida: "Com esse dinheiro a mais no bolso, o trabalhador poderá comprar uma geladeira nova, trocar a televisão para assistir à Copa do Mundo, ou fazer uma reforma em casa" (Exame, 2024).


Os R$ 28 bilhões que vão movimentar a economia

O governo federal estima que a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil deve injetar aproximadamente R$ 28 bilhões na economia brasileira já em 2026. Esse valor representa o montante que deixará de ser recolhido em impostos e permanecerá nas mãos dos trabalhadores (Meu Tudo, 2024).

A expectativa do governo é que esse dinheiro seja rapidamente convertido em consumo, investimentos pessoais e pagamento de dívidas. Com mais recursos disponíveis, os trabalhadores tenderão a aumentar suas compras, o que deve gerar efeitos positivos em diversos setores da economia, principalmente no comércio e nos serviços (Meu Tudo, 2024).

Durante a cerimônia de sanção da lei, o presidente Lula defendeu a lógica econômica por trás da medida: "A economia não cresce por conta do tamanho da conta bancária de ninguém, a economia cresce por conta do consumo que a sociedade pode ter. E o rico não fica mais pobre. Se o pobre consome mais, o rico vai ficar mais rico" (Agência Brasil, 2024).


Como funciona a compensação: quem vai pagar mais

Para equilibrar as contas públicas e evitar impacto negativo na arrecadação federal, a nova lei estabelece uma alíquota mínima adicional de 10% para contribuintes de alta renda. A medida afeta pessoas físicas com rendimentos anuais superiores a R$ 600 mil, o que equivale a aproximadamente R$ 50 mil mensais (Portal da Reforma Tributária, 2024).

A tributação é progressiva e escalonada. Por exemplo, quem ganha R$ 900 mil anuais pagará 5% sobre o rendimento, enquanto a alíquota máxima de 10% será aplicada apenas sobre rendimentos que ultrapassem R$ 1,2 milhão por ano. Importante destacar que quem já paga 10% ou mais de Imposto de Renda não será cobrado novamente, evitando dupla tributação (Senado Federal, 2024).

Segundo estimativas do Ministério da Fazenda, a medida atingirá cerca de 141 mil contribuintes de alta renda no país, o que representa apenas 0,13% do total de contribuintes. Atualmente, esse grupo paga uma alíquota efetiva média de apenas 2,54% de Imposto de Renda sobre seus rendimentos totais, incluindo dividendos. Em comparação, trabalhadores em geral pagam entre 9% e 11% de IR sobre seus ganhos (Exame, 2024).

O ministro Haddad enfatizou que a nova lei é neutra do ponto de vista fiscal: "O 'andar de cima' vai pagar pela compensação, garantindo que não haja prejuízo aos cofres públicos e nem necessidade de corte de gastos ou redução de serviços oferecidos à população" (Agência Brasil, 2024).


A defasagem histórica da tabela do IR

Para compreender a importância dessa reforma, é fundamental entender o contexto histórico da tabela do Imposto de Renda no Brasil. Segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a tabela do IR acumula uma defasagem média de 154,67% entre 1996 e 2024 (Agência Brasil, 2024).

A Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Unafisco) apresenta números ainda mais alarmantes: segundo seus cálculos, a defasagem chegou a 167,02% no período. Para a primeira faixa da tabela, que foi parcialmente corrigida nos últimos anos, a defasagem é de 125% (Diário do Comércio, 2024).

Até 1995, a tabela do Imposto de Renda era corrigida anualmente. No entanto, entre 1996 e 2001, durante os governos de Fernando Henrique Cardoso, não houve nenhuma correção. Em 2002, FHC aprovou um reajuste de 18,99% antes de deixar a presidência. No primeiro mandato de Lula, houve correções de 10% em 2005 e 8% em 2006. Entre 2007 e 2014, a tabela passou a ser corrigida pelo centro da meta de inflação (4,5% ao ano), política que continuou durante os governos Dilma Rousseff até abril de 2015 (Diário do Comércio, 2024).

A última correção parcial em todas as faixas de renda ocorreu exatamente em 2015. Entre 2016 e 2022, durante os governos Temer e Bolsonaro, não houve nenhuma atualização da tabela, agravando ainda mais a defasagem (Agência Brasil, 2024).

Se a tabela do IR fosse corrigida integralmente pela inflação acumulada desde 1996, somente seriam tributados os contribuintes com renda mensal superior a R$ 5.136, praticamente o valor da nova faixa de isenção estabelecida. Da mesma forma, apenas pessoas com rendimentos mensais acima de R$ 12.760 contribuiriam com a alíquota máxima de 27,5%, e não a partir de R$ 4.664 como ocorre atualmente (Monitor Mercantil, 2025).


O custo de uma correção completa

É importante esclarecer que a nova lei não promove uma correção completa da tabela do Imposto de Renda. A mudança se limita à ampliação da faixa de isenção e aos descontos aplicados às faixas intermediárias. Uma correção integral de toda a tabela, contemplando todas as faixas de renda, teria um custo estimado superior a R$ 100 bilhões anuais aos cofres públicos, segundo cálculos do governo (Agência Brasil, 2025).

A Unafisco, por sua vez, estima que a correção completa da defasagem desde 1996 implicaria uma renúncia fiscal de R$ 112,6 bilhões. A entidade defende que tal medida de justiça fiscal deve vir acompanhada de medidas de compensação, principalmente tributando os mais ricos, que possuem parcelas elevadas de rendimentos isentos (Monitor Mercantil, 2025).

Por essa razão, o governo optou por uma estratégia focada: isentar completamente as primeiras faixas sem escalonar a correção para os demais contribuintes. Assim, quem ganha mais de R$ 7.350 continuará pagando a alíquota máxima de 27,5% sem alterações (Agência Brasil, 2024).


A desigualdade que a medida busca combater

A reforma do Imposto de Renda foi apresentada pelo governo como parte de uma estratégia mais ampla de combate à desigualdade no Brasil. Durante a cerimônia de sanção, o presidente Lula citou dados que ilustram a concentração de renda no país: o 1% mais rico acumula 63% da riqueza nacional, enquanto a metade mais pobre da população detém apenas 2% da riqueza (Click PB, 2024).

O ministro Fernando Haddad foi ainda mais incisivo ao destacar a gravidade do problema: "O Brasil possui uma desigualdade pior do que a de 47 países da África. Isso tem que acabar. Temos que ter o mínimo de dignidade para nossa gente" (Click PB, 2024).

Em seu discurso, Lula reforçou a filosofia que norteia a política econômica do governo: "Muito dinheiro na mão de poucos significa miséria, mas pouco dinheiro na mão de muitos significa distribuição de riqueza. O povo pobre não quer muita coisa, ele quer garantir que vai ter comida todo dia, que vai ter um lugar para morar e que seus filhos possam estudar" (Click PB, 2024).

O presidente também abordou a questão da justiça social: "Essa é a arte de governar: é você saber para quem você precisa governar. Quem precisa do Estado? Eu não quero tirar o filho da classe média da universidade para colocar um negro, porque ele também tem direito. O que eu quero é dar ao negro a oportunidade de ele ter o que nunca teve. E não é apenas o povo negro, é o povo pobre" (Exame, 2024).


Como a medida funciona na prática

A isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil será automática. Os trabalhadores não precisarão fazer nenhuma solicitação ou cadastro prévio. A partir de janeiro de 2026, o imposto simplesmente não será descontado no contracheque de quem se enquadra na nova faixa de isenção (Meu Tudo, 2024).

Na prática, a nova isenção terá impacto na declaração do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) de 2027, referente ao ano-base 2026. Importante destacar que, mesmo com a isenção, algumas pessoas ainda podem precisar declarar o IR caso se enquadrem em outras exigências legais, como posse de bens acima de determinado valor ou operações em bolsa de valores (Meu Tudo, 2024).

Para a tributação de alta renda, alguns tipos de rendimentos não entram no cálculo da alíquota mínima de 10%, como ganhos de capital, heranças, doações, rendimentos recebidos acumuladamente, aplicações isentas, poupança, aposentadorias por moléstia grave e indenizações. A lei também define limites para evitar que a soma dos impostos pagos pela empresa e pelo contribuinte ultrapasse percentuais fixados. Caso isso ocorra, haverá restituição na declaração anual (Senado Federal, 2024).

A nova lei também estabelece tributação de 10% para lucros e dividendos remetidos para o exterior, fechando uma brecha que permitia a saída de recursos do país sem a devida tributação (Agência Brasil, 2024).


O impacto político da medida

A aprovação da reforma do Imposto de Renda representa uma significativa vitória política para o governo Lula. A matéria foi enviada ao Congresso em março de 2024 e levou oito meses para ser aprovada, passando por unanimidade tanto na Câmara quanto no Senado. A sanção ocorreu sem vetos, demonstrando alinhamento entre o Executivo e o Legislativo (Portal da Reforma Tributária, 2024).

A medida foi relatada na Câmara pelo deputado Arthur Lira (PP-AL) e no Senado pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL), ambos presentes na cerimônia de sanção no Palácio do Planalto. A aprovação com alterações pouco significativas em relação à proposta original do governo reforça o êxito da articulação política (Portal da Reforma Tributária, 2024).

Com a nova lei entrando em vigor em 2026, ano em que Lula tentará a reeleição, a medida surge como um dos principais trunfos da campanha presidencial. O cumprimento de uma das maiores promessas de campanha de 2022, com impacto direto na vida de milhões de brasileiros, pode se tornar um ativo político importante (Metrópoles, 2024).


Perspectivas para o futuro

A ministra Gleisi Hoffmann, das Relações Institucionais, classificou a elevação da faixa de isenção como "uma questão de justiça social e justiça fiscal", enfatizando que se trata da "primeira reforma significativa da renda no país" (Agência Gov, 2025).

A Unafisco Nacional defende que a isenção anunciada pelo governo é o primeiro passo positivo na direção da correção integral da tabela, mas ressalta que essa é uma medida ainda necessária e desejada para atingir a justiça tributária plena para a classe média assalariada brasileira (Monitor Mercantil, 2025).

A nova legislação representa, portanto, um marco importante na busca por um sistema tributário mais justo e progressivo no Brasil, onde quem ganha mais paga proporcionalmente mais. Ao mesmo tempo, coloca dinheiro no bolso dos trabalhadores de renda média e baixa, potencialmente aquecendo a economia através do aumento do consumo.

Com os R$ 28 bilhões previstos para circular na economia em 2026, os efeitos práticos da medida serão acompanhados de perto por economistas, analistas políticos e, principalmente, pelos milhões de brasileiros que terão mais recursos disponíveis no final do mês para realizar seus sonhos e necessidades.

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